Sudão/Três anos de guerra agrava crise humanitária
Bissau,
16 Abr 26 (ANG) - Há três anos, no dia 15 de Abril, teve início a
guerra civil no Sudão, considerada pela ONU a pior crise humanitária do mundo.
O conflito entre o Exército sudanês, liderado pelo general al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (FAR), grupo paramilitar comandado pelo general Hemedti, já causou o deslocamento de 14 milhões de sudaneses e intensos episódios de violência e crueldade, além de milhares de mortes.
A capital do país,
Cartum, está destruída. Prédios, ruas, casas, tudo foi afetado ou atingido pela
guerra. E apesar de as forças armadas sudanesas terem recuperado o domínio da
cidade há cerca de um ano, a batalha contra as FAR no local durou meses e
deixou marcas visíveis.
Atualmente, mesmo que
cerca de 1,5 milhão de deslocados já tenham retornado a Cartum, segundo a
ONU, 90% dos hospitais seguem sem funcionar, o fornecimento de energia elétrica
é intermitente e as escolas tentam reabrir de forma lenta.
Al-Bachir Babker, de 41 anos, que retornou duas vezes após uma
ausência de três anos, acredita que a cidade vai precisar de vários anos para
se recuperar.
"Fiquei feliz em voltar", disse ele à AFP.
"Mas quando fui ao centro da cidade, foi de partir o coração. A rua que
leva à universidade onde estudei não é mais a mesma, as paredes estão pretas.
Estes lugares não são mais os mesmos", disse ele.
No entanto, apesar da falsa sensação de calma na capital, a
guerra civil continua por todo o país, com repetidos extermínios, estupros,
fome e obrigando milhões de sudaneses a fugirem de suas casas.
Insaf Oumar Baraka é uma
das poucas sobreviventes do massacre de El-Faster, quando paramilitares das FAR
tomaram a cidade, em outubro do ano passado, causando um "banho de
sangue". Com lágrimas nos olhos, ela recorda a violência vivida:
“Os FAR estupravam, às vezes com dez soldados para cada vítima.
Eu cheguei a ver uma mulher ter os seios cortados. É indescritível. Foi na rua.
Conheço um pai cujas filhas foram violentadas na frente dele. Disseram a ele:
'não vamos te matar, mas vamos tomar suas mulheres'”, contou.
Há cerca de 15 anos, Mamma Nour criou um abrigo para mães
solteiras. Com a guerra, quase todas as mulheres sob seus cuidados foram
vítimas das FAR. "Algumas têm pesadelos, outras começam a chorar de
repente, gritando, no meio de uma refeição, como se estivessem em surto
psicótico", explica ela. "Seus corpos inteiros estão marcados por
golpes, mordidas, arranhões. O que elas passaram é desumano."
No campus da Universidade Internacional da
África, Mohammed Osman, vice-diretor, caminha por uma vasta área de terra
revirada. “Todo esse terreno que vocês veem aqui era uma vala comum”, explica.
“Fica logo atrás da faculdade de medicina.
Encontramos entre 3 mil e 4 mil corpos. Havia
crianças enterradas aqui, famílias inteiras.” Durante a ocupação de Cartum
pelas FAR, os moradores eram proibidos de enterrar os mortos. Em segredo,
enterravam seus entes queridos em mesquitas, escolas e até nos quintais das
casas.
O professor Jamal Youssif Ahmed, médico
legista de um dos necrotérios de Cartum, trabalha junto com a equipe do doutor
Hisham Zenalbdeen Mohamed, diretor de medicina legal na cidade.
Eles tentam resgatar a dignidade dos corpos,
cuidando da identificação, transferência, enterro dos não identificados e
realização de autópsias. “É um grande desafio, porque faltam ambulâncias, sacos
mortuários e caixões. O número de corpos é colossal”, afirma.
Atualmente, dos cinco necrotérios de
Cartum, apenas uma está em funcionamento. “O que mais nos falta são câmaras
frigoríficas. Precisamos trabalhar muito rápido: realizamos a autópsia e, em
seguida, devolvemos o corpo”, explica Jamal Youssif Ahmed.
As autoridades sudanesas estimam que
ainda existam cerca de 15 mil túmulos improvisados espalhados pelas ruas de
Cartum.
Com a retomada da capital pelo Exército sudanês, os estados de Cordofão e de Darfur – respectivamente ao sul e a oeste do Sudão – tornaram-se os principais campos de batalha do conflito nos últimos meses. Em Janeiro, o estado do Nilo Azul, na fronteira com a Etiópia, também registou combates.
Em Março, uma nova linha de frente surgiu na região, quando as FAR e seus aliados da Frente Popular de Libertação do Sudão-Norte, apoiados por Adis Abeba, atacaram a cidade estratégica de Kurmuk. O Exército enviou reforços para Damazin, capital da região.
Dos 18 estados que compõem o Sudão, cinco estão atualmente sob controle dos paramilitares das Forças de Apoio Rápido (FAR), e outros quatro enfrentam confrontos ativos.
A linha de frente se estende pelos três estados do Cordofão, sendo que o Cordofão do Sul regista o maior número de vítimas civis. Nessa região, cidades mudam de controle diversas vezes.
O uso intensivo de drones pelos
paramilitares matou, segundo a ONU, mais de 500 civis entre o início de janeiro
e meados de Março. À exceção de algumas localidades de Darfur do Norte, os
cinco estados do Darfur estão sob controle das FAR.
A comunidade internacional se reúne
nesta quarta-feira (15) em Berlim e espera arrecadar mais de US$ 1 bilhão para
ajudar o país.
"Queremos superar a arrecadação da
última conferência em Londres, há um ano, onde foram angariados US$ 1 bilhão
(€ 850 milhões)", declarou o ministro das Relações Exteriores da
Alemanha, Johann Wadephul, em entrevista à rádio Deutschlandfunk,
acrescentando que ainda estava "recebendo confirmações" de
doações.
"Temos
duas grandes guerras no Irã e na Ucrânia, mas esta catástrofe na África não
deve ser esquecida", enfatizou o ministro alemão, considerando
"lamentável" que "os Estados Unidos não estejam mais tão ativos
como nos anos anteriores" nessa questão.
A reunião de Berlim reúne governos, agências humanitárias e organizações da sociedade civil, mas exclui as duas partes envolvidas no conflito: o Exército e as FAR. Reuniões semelhantes em Londres e Pais, nos últimos dois anos, não conseguiram produzir nenhum avanço diplomático.
Para além da destruição generalizada das infraestruturas, a guerra lançou ainda mais a população de cerca de 50 milhões de habitantes na insegurança alimentar e na pobreza. O apelo por doações lançado pela ONU para 2026 está, por enquanto, financiado em apenas 16%.
No ano passado, de acordo com as Nações
Unidas, a fome atingiu as populações das capitais do Darfur do Norte,
El-Fasher, Cordofão do Sul, Kadugli, com outras 20 áreas em risco.
O Sudão é liderado pelo general Abdel
Fattah al-Burhan, que ganhou projeção internacional em 2019, ao derrubar o
presidente, Omar al-Bashir, após meses de protestos.
Antigo aliado de Bashir e comandante
militar durante o conflito de Darfur (2003–2008), Burhan assumiu a presidência
interina e liderou o Conselho Militar de Transição, encarregado de conduzir o
país rumo à democracia.
No entanto, em Outubro de 2021, o
general deu um golpe, destituindo o primeiro-ministro civil Abdalla Hamdok e
interrompendo a transição democrática. Desde então, ele manteve o controle do
país, apesar de protestos e de um acordo firmado em Dezembro de 2022 que previa
a retomada da transição civil.
Em oposição está Mohamed Hamdan
“Hemedti” Dagalo, que chegou à liderança da milícia Janjaweed - que deu origem
às Forças de Apoio Rápido (FAR) - e foi acusada de crimes contra a humanidade
em Darfur.
Em 2003, o conflito em Darfur teve
início quando grupos rebeldes de minorias étnicas se insurgiram contra o
governo central de Cartum, dominado por árabes.
Na época, de acordo com a ONU, cerca de
300 mil pessoas foram mortas e 2,7 milhões tiveram de ser deslocadas.
Na ocasião, a milícia Janjaweed, de
Hemedti, lutou ao lado das forças de Bashir contra os rebeldes. Sem treinamento
militar formal, Hemedti conquistou espaço e, em 2013, assumiu a liderança das
Forças de Apoio Rápido (FAR).
Bashir costumava utilizar as FAR para
reprimir protestos e conter o descontentamento social que culminou em sua
queda.
À
medida que o grupo crescia, surgiram temores de que se tornasse mais poderoso
do que as forças de segurança oficiais. Em 2017, o governo oficializou as FAR
como força de segurança independente.
Após a queda de Bashir, Hemedti se
alinhou ao lado vencedor e assumiu o posto de vice-líder do Conselho Militar de
Transição. Nos anos seguintes, o grupo paramilitar fortaleceu alianças
internacionais, incluindo contatos na Rússia e no Golfo, e enviou combatentes
para apoiar a coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen.
Após o golpe de 2021, Burhan utilizou
novamente as FAR para conter protestos, enquanto Hemedti se manteve discreto.
O paramilitar foi então nomeado chefe
adjunto do Conselho Soberano, tornando-se efetivamente o número dois do país.
Mas o plano de transição democrática e um projeto para integrar as FAR ao Exército
sudanês geraram críticas da parte de Hemedti, levando os dois líderes a campos
políticos opostos.
Com isso, as FAR deram início a combates para tentar tomar posições estratégicas em Cartum e outras cidades, desafiando o comando do Exército. Isso rapidamente escalou para uma guerra civil aberta. ANG//RFI/ AFP

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