África do Sul/Voo de deportação expõe violência xenófoba neste país africano
Bissau, 28 Mai 26 (ANG) - O primeiro voo com cidadãos
ganeses evacuados da África do Sul após novos episódios de violência xenófoba
seguia para Accra nesta quarta‑feira (27), segundo o governo de Gana.
O episódio reacende debates sobre migração, integração
continental e a distância entre a retórica pan-africana e a realidade enfrentada
por trabalhadores do continente.
O
primeiro voo de repatriação de cidadãos ganeses que deixaram a África do Sul após
novos episódios de violência xenófoba decolou na manhã desta quarta‑feira (27)
e seguia rumo a Accra no meio da tarde, segundo o Ministério das Relações
Exteriores de Gana.
A operação marca o início de uma retirada em larga escala: cerca de 800 ganeses devem ser evacuados nos próximos dias, em resposta a protestos e ataques contra estrangeiros que voltaram a se espalhar pelo país mais industrializado do continente.
O voo inaugural, que sofreu atraso antes da decolagem, transporta aproximadamente 300 pessoas. Imagens registadas no aeroporto O.R. Tambo, em Joanesburgo, mostram longas filas de famílias ganesas aguardando embarque, muitas delas carregando apenas malas pequenas e documentos de viagem.
O governo de Gana afirmou que oferecerá apoio financeiro para reintegração e assistência psicossocial aos repatriados, que chegam após meses de tensão crescente.
A África do Sul, destino histórico de trabalhadores migrantes de toda a região, vive ciclos recorrentes de hostilidade contra estrangeiros, alimentados por um desemprego que supera 30% e por disputas locais por trabalho e serviços públicos.
Os surtos de violência, que já ocorreram em 2008, 2015 e 2019, voltaram a ganhar força após a circulação de um vídeo que mostra a agressão de Emmanuel Asamoah, cidadão ganês residente no país. As imagens viralizaram e reacenderam debates sobre a incapacidade do Estado sul‑africano de conter ataques motivados por xenofobia.
As tensões recentes também expõem contradições profundas no discurso político africano. Embora governos defendam a integração continental e a livre circulação de pessoas, migrantes africanos continuam enfrentando hostilidade em vários países.
Para especialistas, a distância entre a retórica panafricana e a realidade quotidiana se amplia quando crises económicas pressionam populações locais e alimentam movimentos anti‑imigrantes.
O governo de Gana tem buscado transformar o episódio em tema de debate continental.
Em reuniões na União Africana, autoridades ganesas alertaram que ataques recorrentes contra estrangeiros ameaçam projetos de integração, como a Zona de Livre‑Comércio Continental Africana, e fragilizam compromissos de mobilidade regional.
Para Accra, a violência na África do Sul não é apenas um problema doméstico, mas um obstáculo político que compromete ambições económicas compartilhadas.
A evacuação também ocorre num momento em que países africanos enfrentam pressões internas para proteger seus cidadãos no exterior. A resposta rápida de Gana contrasta com a lentidão observada em crises anteriores e reflete a crescente expectativa de que governos atuem de forma mais assertiva diante de riscos à segurança de migrantes.
Para famílias que aguardam parentes em
Accra, o retorno representa alívio, mas também incerteza: muitos dependiam de
empregos informais na África do Sul e agora precisarão reconstruir suas vidas. ANG/RFI/AFP

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