França/Impacto climático agrava
desigualdade de gênero, dizem ONGs que pressionam por financiamento antes do G7
Bissau, 12 Mai 26 (ANG) - Durante muito tempo relegado
a segundo plano, o impacto das mudanças climáticas na desigualdade de gênero
agora é tema de alertas de ONGs que, às vésperas da cúpula do G7, em Junho, na
França, lamentam a discrepância entre os anúncios políticos e o financiamento
efetivo.
"As mudanças climáticas são sexistas", afirma Mathilde
Henry, da CARE França. "Elas aceleram os riscos enfrentados pelas
mulheres, multiplicam" e "quando as secas atingem, quando as
colheitas falham, são as mulheres que comem por último e em menor
quantidade".
Atualmente, 47,8 milhões de mulheres a mais do que homens sofrem
de insegurança alimentar no mundo, segundo a Ação Contra a Fome (ACF), para
quem a desigualdade de género é tanto "causa quanto consequência da
fome".
O aumento das temperaturas
também afeta sua segurança. Cada aumento de 1ºC na temperatura global está
associado a uma alta de 4,7% na violência doméstica, de acordo com um estudo de
Abril de 2025 da Spotlight Initiative, uma aliança entre a União Europeia, as
Nações Unidas e o governo mexicano.
Eventos climáticos
extremos, como as inundações em Bangladesh, resultam em aumentos documentados
na violência de género e no número de casamentos de crianças, destaca Henry.
No entanto, a inação em relação às mudanças climáticas pode
levar até 158,3 milhões de mulheres e meninas adicionais à extrema pobreza até
2050, de acordo com o Panorama de Género 2025 da ONU Mulheres.
Nesse contexto, organizações estão utilizando a cúpula do G7
para tentar influenciar a resposta dos governos a essa questão.
Embora a França, que está na presidência
do G7 este ano e tem adotado uma estratégia de diplomacia feminista para o
período de 2025 a 2030, ONGs apontam que, na prática, houve uma redução da
ajuda internacional e denunciam seus impactos negativos.
Em 2025, a ajuda oficial ao
desenvolvimento (AOD) concedida por membros e associados do Comité de
Assistência ao Desenvolvimento totalizou US$ 174,3 bilhões. O montante
representa uma queda de 23,1% em comparação com o ano anterior — a maior
contração anual já registada, segundo a OCDE.
Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido,
Japão e França respondem por 95,7% da redução total da ajuda oficial ao
desenvolvimento.
Neste contexto, o Fundo de Apoio às
Organizações Feministas (FSOF), considerado "a iniciativa mais emblemática
da diplomacia feminista francesa", sofreu um impacto significativo em seu
financiamento, enfatiza a Plan International France.
"Estamos enfrentando um ataque à
linguagem, um ataque ideológico e um ataque financeiro que sequer está sendo
combatido pelos países que defendem a igualdade", comenta Léa Cros, da
ACF.
"A linguagem diplomática é uma coisa. Mas
essa linguagem precisa ser colocada em prática. E, neste momento, até mesmo doadores
europeus que podem defender a igualdade de género, como a França, estão
causando um enorme terramoto financeiro" ao reduzirem seus financiamentos.
Esses
cortes têm repercussões diretas na continuidade das operações de programas de
ONGs internacionais, dezenas dos quais estão sendo encerrados, mas também em
organizações locais que atuam na linha de frente e em milhões de beneficiários.
“Infelizmente, tudo isso se traduz em mortes crianças fora da escola,
casamentos infantis, etc.”, enumera Michelle Perrot, da Plan International
França.
Para tentar conter esses fenómenos, especialistas de países em desenvolvimento defendem a participação dessas mulheres nas políticas públicas.
Além da
vulnerabilidade aos riscos climáticos, essas mulheres são fundamentais para
soluções de adaptação, principalmente na conservação da natureza e na
agricultura. “As mulheres não são apenas vulneráveis.
Se receberem apoio, podem se tornar agentes de mudança”, argumentou Hoang Thi Ngoc Ha, pesquisadora vietnamita especializada em soluções baseadas na natureza e transversalidade da perspectiva de género na adaptação climática, em uma colectiva de imprensa antes da reunião do G7 sobre meio Ambiente, no final de Abril.
Ela também destacou a importância das doações de ONGs direcionadas a associações locais, que possibilitaram, por exemplo, a concessão de microcrédito a mulheres, o desenvolvimento de programas em aldeias e a melhoria da renda de agricultoras.
Além disso, as mulheres de comunidades indígenas ainda são "quase sistematicamente excluídas" dos órgãos internacionais de tomada de decisão, segundo uma delas, Gladys Yolanda Guamán Casillas. Essa especialista equatoriana em agroecologia fez um apelo para que "os governos de todos os países do mundo" sejam "forças motrizes para que sejamos ouvidas".
ANG/RFI/ AFP

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