Canadá/'Ninguém nos ditará com quem
o Canadá pode se relacionar', diz Carney após ameaça de
Trump à UE
Bissau,18 Set 26 (ANG) - A proposta da presidente da Comissão
Europeia, Ursula von der Leyen, de conceder ao Canadá um status inédito de
"membro associado" da União Europeia abriu uma nova frente de tensão
entre Bruxelas e Washington.
Enquanto o primeiro-ministro canadense, Mark Carney,
acolheu a iniciativa como uma oportunidade para aprofundar a cooperação entre
democracias e reforçar a autonomia estratégica de ambos os lados do Atlântico,
o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou a ideia como
"ridícula" e ameaçou retaliar comercialmente o bloco europeu.
O
anúncio foi feito na quarta-feira por Ursula Von der leyen durante seu
discurso anual sobre o Estado da União, na presença de Carney. Além do novo
status de associação, ainda sem contornos definidos, a presidente da Comissão
Europeia propôs a participação canadense em um futuro Conselho de Segurança
Europeu.
A iniciativa pegou de surpresa vários Estados-membros da UE, segundo diplomatas em Bruxelas, mas foi recebida com entusiasmo pelo governo canadense.
Em discurso no Parlamento Europeu, em
Estrasburgo, nesta quinta-feira (17), Carney apresentou a aproximação entre
Ottawa e Bruxelas como uma resposta às transformações geopolíticas e económicas
em curso.
"Uma aliança entre o Canadá e a UE
seria um farol para outras democracias; uma aliança definida não pelo que nos
opomos, mas pelo que defendemos", afirmou Carney.
O premiê destacou valores compartilhados
como liberdade, solidariedade e respeito à soberania, acrescentando que os
canadenses apoiam amplamente uma cooperação mais estreita com a Europa.
"Ninguém nos ditará com quem o
Canadá pode se relacionar", declarou posteriormente a jornalistas, em uma
referência indireta às críticas vindas de Washington.
Mark Carney procurou, no entanto,
afastar a ideia de que a proposta europeia representaria a formação de um bloco
voltado contra os Estados Unidos.
"Não buscamos poder para dominar os
outros. Pelo contrário, buscamos resiliência para que ninguém possa controlar
nossos mercados abertos, infringir nossa soberania ou comprometer nossas
liberdades", afirmou o primeiro-ministro canadense.
Embora sem mencionar diretamente Donald Trump, o líder canadense fez uma
crítica implícita ao uso crescente de instrumentos económicos como ferramenta
de pressão política. "A integração econômica está sendo usada como arma, e
as tarifas, como meio de coerção. Os mecanismos financeiros estão sendo usados
para coerção.
As cadeias de suprimentos são pontos
fracos a serem explorados", disse aos eurodeputados.
Desde o
retorno de Trump à Casa Branca, as relações entre Ottawa e Washington se
deterioraram. O Canadá foi alvo de tarifas sobre dezenas de bilhões de dólares em
comércio bilateral, levando o governo canadense a buscar novos parceiros económicos
e estratégicos.
A reação americana à proposta europeia foi imediata. Durante uma viagem à Carolina do Norte, Trump afirmou que poderá impor medidas severas caso considere que a associação do Canadá à UE represente um gesto hostil aos interesses dos Estados Unidos.
"Se ela fizer isso, se eu julgar
que seja um ato hostil, imporei tarifas muito altas ou suspenderei o comércio
com a Europa sobre muitos produtos", declarou o presidente americano a
jornalistas. "Se a intenção for boa, ótimo. Se a intenção for ruim,
imporemos tarifas muito altas à Europa", acrescentou, visivelmente
preocupado com iniciativas que possam fortalecer alianças económicas e
políticas fora da órbita americana.
Trump já havia classificado a proposta
de Von der Leyen como "ridícula", aumentando a pressão sobre os
europeus.
Bruxelas tentou minimizar o atrito.
Questionado sobre as ameaças do presidente americano, o porta-voz da Comissão
Europeia para o comércio, Olof Gill, afirmou que o aprofundamento dos laços com
o Canadá "não é dirigido contra ninguém".
"Estamos comprometidos em estreitar
ainda mais os laços com o Canadá", afirmou.
A França adotou um tom mais cauteloso. O
ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, declarou apoiar o
fortalecimento das relações entre a UE e o Canadá, mas ressaltou que a proposta
precisará ser "debatida, analisada e examinada minuciosamente" antes
de uma posição definitiva de Paris.
Para Carney, porém, o debate sobre o
formato institucional da associação é secundário. "O que importa é a
substância, o que construiremos juntos", afirmou. O primeiro-ministro
canadense defendeu uma cooperação aprofundada em setores considerados
estratégicos, como minerais críticos, inteligência artificial, base industrial
de defesa e segurança energética.
"O Canadá e a Europa devem garantir
nossa autonomia estratégica por meio de uma profunda cooperação que abarque
todas as capacidades estratégicas", declarou.
A proposta de Ursula von der Leyen surge
em um contexto de crescente incerteza sobre o futuro da relação transatlântica.
Enquanto a União Europeia procura reduzir dependências externas e reforçar sua
posição entre Estados Unidos e China, o Canadá busca diversificar suas
parcerias diante das tensões comerciais com seu principal aliado histórico.
Ao defender uma "aliança
única" entre Ottawa e Bruxelas, Mark Carney deixou claro que pretende
aproximar o Canadá da Europa sem romper com Washington. As ameaças de Trump,
porém, mostram que esse reposicionamento geopolítico poderá ter custos
diplomáticos e comerciais cada vez mais elevados para os dois lados do
Atlântico. ANG/RFI/AFP

Sem comentários:
Enviar um comentário