Cuba/Queda de 48% no turismo afeta moradores e agrava crise económica
Bissau, 29 Abr 26 (ANG) - Com menos
voos, escassez de combustível e redução no número de visitantes, Cuba perde uma
de suas principais fontes de receita e agrava dificuldades de trabalhadores que
dependiam do setor.
A queda do turismo tem ampliado os
efeitos da crise económica em Cuba e afetado a rotina de moradores da ilha. A
redução no número de visitantes atinge empregos, diminui a circulação de
dólares e impacta setores que dependiam diretamente da presença de
estrangeiros. Em Março, apenas 35.561 turistas chegaram ao país, um dos
níveis mais baixos dos últimos anos.
O turismo é a segunda fonte de receitas
em divisas e até janeiro empregava mais de 300 mil pessoas na ilha de 9,6
milhões de habitantes.
Em
Havana Velha, no centro histórico da capital do país, que costumava ficar cheia
de turistas, o cenário mudou. Restaurantes continuam abertos, mas agora recebem
poucos clientes. Bares tradicionalmente frequentados por turistas operam com
movimento reduzido. Lojas de souvenirs permanecem vazias durante boa parte
do dia.
O turismo ganhou importância estratégica
para Cuba nos anos 1990, depois do colapso da ex-União Soviética, quando o país
enfrentou uma grave crise econômica conhecida como Período Especial. Naquele
momento, a entrada de divisas por meio de visitantes estrangeiros se tornou uma
das principais fontes de receita da ilha e também uma alternativa para muitos
moradores enfrentarem as dificuldades quotidianas.
Nos anos seguintes, o turismo manteve
papel estratégico para a economia cubana. Desde a pandemia, porém, o número de
visitantes começou a cair. Agora, a retração se aprofundou. No início de
fevereiro, o governo cubano anunciou que não conseguiria mais abastecer
aeronaves nos aeroportos da ilha. A medida levou algumas companhias aéreas a
suspender operações.
Segundo um funcionário de um hotel no
centro histórico de Havana, após o cancelamento dos voos, turistas que já
tinham viagens marcadas entraram em contato para cancelar reservas.
Com a baixa ocupação, parte dos hotéis
administrados pelo Estado foi fechada para concentrar hóspedes nos
estabelecimentos que permaneceram abertos.
A queda atingiu todos os principais
mercados emissores. O Canadá, historicamente o maior fornecedor de turistas à
ilha, registrou 124.794 visitantes no trimestre, 54,2% a menos que um ano
antes. As chegadas da Rússia caíram 37,5%, enquanto as da comunidade cubana
residente no exterior, em sua maioria radicada nos Estados Unidos, diminuíram
42,8%.
O trabalhador rural Calisto Aguilar, que
vive entre Havana em uma propriedade localizada a quarenta quilômetros da
capital, aluga quartos na casa que mantém no centro da cidade. Ele afirma que a
procura praticamente desapareceu.
“Há alguns anos, havia gente na rua
procurando lugar para ficar e não tinha vaga. Depois que Donald Trump chegou à
Casa Branca, tudo isso acabou”, afirma.
Calisto diz que o turismo já havia sido
afetado durante o primeiro mandato do republicano. Em 2019, o governo
norte-americano proibiu cruzeiros dos Estados Unidos para Cuba, medida que
desfez a abertura promovida durante o governo de Barack Obama
“A entrada de cruzeiros foi interrompida
e, de forma geral, o turismo parou. Todas as medidas que tinham sido planejadas
desde o governo Obama foram interrompidas. Lembro que via cruzeiros
desembarcando em Havana pela manhã quando saía para trabalhar.”
A redução no número de turistas afeta também
quem dependia das vendas diretas aos visitantes. O professor aposentado Rafael
Rosa afirma que a pensão mensal que recebe do governo não é suficiente para
comprar alimentos no mercado privado, uma das alternativas diante do
desabastecimento nos estabelecimentos subsidiados pelo Estado. Para
complementar o orçamento, ele passou a vender souvenires nas ruas.
Rafael relata que, quando consegue
vender alguma peça, o dinheiro costuma ser usado para comprar comida. “Tenho
essa atividade que, às vezes, quando tenho sorte, me rende algum dinheiro para
a comida.”
Ao falar com a reportagem, Rafael disse
que não conseguia vender nada havia duas semanas.
“Cada vez me sinto mais cansado, porque
preciso caminhar horas atrás de turistas para que comprem de mim. Sorrio muito
pouco porque minha mãe está velha e fico triste com o que está acontecendo
comigo. Estou doente e ainda não encontrei solução para o meu problema”,
lamentou.
Na
avaliação de CALISTO Aguiar, a situação de Cuba não deve melhorar tão cedo. Ele
reconhece que a recuperação será lenta, mas afirma que ainda mantém esperança,
sobretudo por causa dos filhos.
“Se você analisar o panorama, percebe
que as coisas não vão mudar de um dia para o outro. Isso demora anos. Mas tenho
esperança, sempre. Quem tem filhos precisa ter esperança.”
Sem combustível, com menos voos e com a forte redução no número de visitantes, Cuba vê desaparecer uma importante fonte de receita. Durante décadas, o turismo ajudou o país a atravessar períodos difíceis. Hoje, com o setor esvaziado, a ilha ainda procura caminhos para reagir a uma das mais duras crises de sua história. ANG/RFI

Sem comentários:
Enviar um comentário