OPEP/Saída dos Emirados Árabes Unidos amplia instabilidade do mercado do petróleo
Bissau, 29 Abr 26 (ANG) - Os Emirados Árabes Unidos anunciaram nesta terça‑feira (28) sua saída da OPEP e também da OPEP+, em um movimento que representa um duro golpe para os dois principais grupos de países exportadores de petróleo e, em particular, para a Arábia Saudita, que lidera a organização.
A
decisão ocorre em um momento delicado, marcado por um choque energético
histórico provocado pela guerra no Oriente Médio e por crescentes sinais de
instabilidade na economia global.
Membro da Organização dos Países
Exportadores de Petróleo desde 1967, os Emirados Árabes Unidos participaram
durante quase seis décadas da estratégia coletiva de controle da oferta.
A
saída surpresa pode aprofundar divisões internas e enfraquecer o cartel, que
tradicionalmente busca projetar uma frente unida, mesmo diante de divergências
recorrentes — que vão de disputas geopolíticas a desacordos sobre cotas de
produção.
O
anúncio ocorre em um contexto particularmente sensível para os países
produtores do Golfo. As exportações de petróleo da região enfrentam sérias
dificuldades desde o fechamento efectivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, logo
após o início da guerra lançada pelos Estados Unidos e por Israel, em 28 de
fevereiro.
Por essa faixa marítima estratégica, situada ao longo da costa iraniana, transitam normalmente cerca de 20% do petróleo bruto e do gás natural liquefeito consumidos no mundo.
O bloqueio transformou o estreito em um dos principais focos de tensão do conflito, fez os preços do petróleo dispararem e lançou uma forte incerteza sobre as perspectivas económicas globais.
A saída dos Emirados Árabes Unidos da
OPEP também representa uma vitória política para o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, crítico histórico do cartel. O líder americano acusou
repetidamente a organização de “roubar o resto do mundo” ao manter
artificialmente elevados os preços do petróleo.
Aliado estratégico de Washington e
centro comercial regional, Abu Dhabi vinha demonstrando crescente
descontentamento com a postura de outros países árabes diante dos ataques
iranianos sofridos desde o início da guerra. A crítica se tornou pública na
véspera do anúncio.
Durante uma sessão do Fórum de
Influenciadores do Golfo, na segunda‑feira (27), o conselheiro diplomático do
presidente dos Emirados Árabes Unidos, Anwar Gargash, classificou como fraca a
resposta coletiva do mundo árabe e do Golfo.
“Os países do Conselho de Cooperação do
Golfo se apoiaram logisticamente, mas, do ponto de vista político e militar,
acho que essa foi a posição mais frágil de sua história”, afirmou. “Eu já
esperava essa postura da Liga Árabe, mas não a do Conselho de Cooperação do
Golfo”, acrescentou.
O ministro da Energia dos Emirados
Árabes Unidos, Suhail bin Mohammed Al Mazrouei, afirmou à Reuters que
a saída da OPEP e da OPEP+ dá ao país maior margem de manobra, já que Abu Dhabi
deixa de ter compromissos formais com o grupo. Segundo ele, a decisão foi
tomada sem consultas diretas a outros membros, incluindo a Arábia Saudita.
Analistas veem o gesto como um ponto de
inflexão para o mercado de petróleo. Para Jorge Leon, da consultoria Rystad, os
Emirados Árabes Unidos estão entre os poucos membros da OPEP que, ao lado da
Arábia Saudita, dispõem de significativa capacidade ociosa — uma ferramenta
fundamental para a influência do cartel sobre os preços.
“Embora o impacto imediato possa ser
limitado, dadas as interrupções atuais no Estreito de Ormuz, a implicação de
longo prazo é um enfraquecimento estrutural da OPEP”, avalia.
Fora da organização, diz o analista, os
Emirados Árabes Unidos têm tanto a motivação quanto a capacidade para aumentar
sua produção, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do papel saudita
como principal estabilizador do mercado.
Sem a força coletiva da OPEP para
absorver choques de oferta, o mercado global de petróleo pode se tornar ainda
mais volátil — em um momento em que a energia já se tornou um dos principais
vetores de instabilidade econômica e geopolítica no mundo. ANG/RFI/AFP

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