Brasil/ Lula da Silva defende multilateralismo com chanceler alemão
Bissau, 20 Abr 26 (ANG) - O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, no 2º dia de visita à Alemanha, afirmou nesta
segunda-feira (20) que o Brasil participa da Feira de Hanôver “com a plenitude
de um país que sabe o que é capaz de fazer”, destacando o objetivo de
aprofundar a parceria com a Europa, sobretudo com a Alemanha.
Em seu discurso, Lula disse que o Brasil
"cansou de ser tratado como um país de terceiro mundo” e criticou o
enfraquecimento da ordem global construída após a Segunda Guerra
Mundial. “O mundo não pode ser dirigido por mentiras nem pelo
unilateralismo”, enfatizou.
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (20)
em Hanôver que o Brasil pretende assumir protagonismo global na transição
energética, durante discurso na Alemanha. Segundo ele, o país reúne condições
estruturais para liderar a produção de combustíveis renováveis.
O presidente também destacou uma mudança
de postura do país no cenário internacional.
“Nós estamos falando de um país que
cansou de ser pequeno. Um país que cansou de ser um país em via de
desenvolvimento. Um país que cansou de ser tratado como um país do terceiro
mundo. Um país que cansou de ser tratado como invisível.”
Lula acrescentou que o Brasil combina
dimensão territorial, estabilidade econômica e credibilidade recente para
sustentar essa ambição. “Nós somos uma grande nação, temos 215 milhões de
habitantes, temos uma economia razoavelmente estável e conquistamos muita
credibilidade nos últimos anos”, afirmou.
O presidente Lula propôs uma comparação
direta entre combustíveis brasileiros e europeus ao defender a competitividade
energética do país. Segundo ele, a iniciativa envolve inclusive montadoras e
autoridades estrangeiras.
"O Brasil é o país que tem a sua
matriz energética mais limpa do mundo do ponto de vista da energia elétrica.
Quase 90% da nossa energia é renovável. Nós somos grandes produtores de
biodiesel e de etanol", disse Lula, que criticou o custo adicional imposto
por exigências tecnológicas na indústria automotiva.
“A gente (quer) tentar mostrar que nós
não precisamos, a cada ano, pagar 15% a mais no preço do caminhão por conta do
mix tecnológico para fazer com que o motor emita menos gás de efeito estufa.
Porque o nosso combustível já emite menos”, argumentou.
O presidente brasileiro criticou o cenário internacional atual e afirmou que há um enfraquecimento das regras multilaterais construídas após a Segunda Guerra Mundial. Em discurso, ele alertou para o avanço de uma lógica baseada na força económica e militar nas relações entre países.
“Nesse momento em que o mundo está consagrado, em que o multilateralismo, sabe, está sendo destruído, em que aquilo que era a harmonia constituída depois da Segunda Guerra Mundial, para estabelecer a paz e harmonia entre os países, está sendo jogado fora com a tentativa da introdução do unilateralismo, ou seja, fazendo com que a força tecnológica, a força das armas ou a força do PIB seja o indutor das negociações entre países potentes e países pequenos”, disse.
O presidente defendeu mudanças na
governança global e a retomada do equilíbrio nas relações internacionais. “Não
é possível que a gente não tenha noção de que nós precisamos mudar essa
situação mundial”, afirmou.
Lula também fez uma reflexão sobre o
impacto da era digital. “Veja que eu falei humanidade humana. Porque a
humanidade está virando algoritmo. A revolução digital está induzindo a
humanidade a ter um comportamento, sabe, totalmente diferente daquilo para o
qual os seres humanos foram criados, que era para conviver em comunidade e
harmonia.”
O presidente criticou ainda mudanças na
forma de atenção e debate público. “Em muitos encontros a que eu vou, as
pessoas estão no celular, não estão prestando atenção naquilo que você está
falando. Ou seja, a era do argumento acabou. A era da verdade se esvaiu.”
Ele ainda alertou para o avanço da
desinformação.
“Nós estamos vivendo a era do fake news.
A era em que, quanto menos verdade você falar, mais importante você passa a
ser.”
Ontem, no primeiro dia da viagem, Lula e
o chanceler alemão, Friedrich Merz, participaram da cerimônia de abertura da
feira e hoje devem aprofundar a agenda de acordos bilaterais. Haverá consultas
governamentais no Palácio de Herrenhausen, com a participação de sete ministros
do Brasil e oito da Alemanha. O objetivo é ampliar ainda mais as relações em áreas
como comércio, matérias-primas, defesa, digitalização, pesquisa e proteção
climática.
No
domingo, Merz recebeu o presidente brasileiro com honras militares em frente ao
Palácio de Herrenhausen para uma reunião privada. Em seguida, eles participaram
da cerimônia de abertura da Feira de Hanôver. Merz disse que, quando o acordo
de livre comércio Mercosul-União Europeia entrar em vigor, enviará um sinal
"de que queremos essa cooperação com o mínimo de tarifas possível,
idealmente sem nenhuma tarifa”.
Lula defendeu uma reforma do Conselho de Segurança da ONU e fez críticas ao presidente americano, Donald Trump. Ele chamou de “loucura” a operação militar dos Estados Unidos no Irã.
O Brasil chegou a Hanôver com uma
estratégia de reposicionamento. A ideia é deixar para trás a imagem de país
agrícola e se apresentar como uma potência industrial e tecnológica. O governo
trouxe mais de 300 empresas e está apostando forte em áreas como energia
renovável, mobilidade elétrica e digitalização. E o Brasil também traz números
para sustentar o discurso.
Por exemplo, o país já é um dos líderes na América Latina em mobilidade elétrica e vem expandindo rapidamente a infraestrutura de recarga. Além disso, quase 90% da eletricidade do país já vem de fontes renováveis, o que é um argumento muito forte em um momento em que a Europa tenta acelerar a sua transição energética. Então a mensagem é clara: o Brasil quer ser visto não só como fornecedor de commodities, mas como um parceiro tecnológico relevante em setores estratégicos.
A
relação entre os dois países é antiga e ganhou peso nos últimos anos. O Brasil
é hoje o principal parceiro comercial da Alemanha na América Latina, e mais de
1.500 empresas alemãs têm operações no país, incluindo gigantes comoBosch,
Siemens e Volkswagen.
As
subsidiárias alemãs geram aproximadamente 10% do PIB industrial brasileiro
e criam 250 mil empregos no país. Ao mesmo tempo, a Alemanha é o principal
parceiro do Brasil dentro da União Europeia. Só no ano passado, o volume de
comércio entre os dois países chegou a cerca de 21 bilhões de euros.
E essa relação não é só comercial, ela
também é estratégica. A Alemanha vê o Brasil como um parceiro importante em
áreas como energia, matérias-primas e descarbonização. Já o Brasil enxerga a
Europa como uma forma de diversificar suas alianças em um mundo cada vez mais
polarizado. E aqui entra o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia
como um fator fundamental.
O acordo comercial entre o Mercosul e a
União Europeia está marcado para entrar em vigor em primeiro de Maio, ainda que
de forma provisória. Isso porque o Parlamento Europeu pediu uma revisão
judicial do tratado. Mas, para todos os efeitos, algumas tarifas já vão a zero
a partir de Maio, mesmo que essa revisão ainda esteja pendente.
Os alemães que, ao contrário da França,
são amplamente favoráveis ao acordo, estão em contagem regressiva. A
concorrência atual com a China é cada vez mais forte para os alemães no mercado
brasileiro. Para se ter uma ideia, cerca de um terço das máquinas vendidas no Brasil
hoje já vêm de fabricantes chineses, que competem principalmente no segmento de
preços mais baixos.
As empresas alemãs, por outro lado,
ainda têm vantagem em tecnologia e no chamado segmento premium, mas enfrentam
dificuldades justamente por causa de custos mais altos. O acordo da UE com o
Mercosul vai reduzir tarifas e fortalecer a posição das empresas europeias no
Brasil.
Os alemães hoje pagam taxas de
importação na indústria que chegam a 35%. Se o acordo acabar bloqueado
judicialmente, a tendência é que os concorrentes chineses continuem ganhando
espaço. Ou seja, o que está em jogo aqui não é só uma parceria bilateral, mas
uma disputa global por influência económica e política. ANG/RFI

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