EUA/Copa nos
Estados Unidos vira desafio de orçamento para torcedores: 'está todo o mundo
revoltado'
Bissau, 29 Abr 26 (ANG) - Assistir aos jogos de uma Copa do Mundo nunca foi barato, mas o Mundial nos Estados Unidos parece estar extrapolando os limites. Ingressos que podem chegar à casa dos milhões de dólares, custos elevados para conseguir um visto, conforme o país de origem, e agora a gota d’água são os valores do transporte público para chegar aos estádios, que podem chegar a US$ 100, ou mais de R$ 500.
O preço de passagens aéreas é menor do
que foi para o Catar e a Rússia. Entretanto, todo o resto da conta corre o
risco de sair mais alto: hospedagens, transportes e restaurantes, além da
tradicional gorjeta nos serviços, que chega a 20% nos Estados Unidos. Muitos
torcedores desistiram da viagem.
“Quando é uma pessoa sozinha, ela se
vira, vai no amor e fica no sofá de alguém. Mas quando é para quatro pessoas, a
gente viu que muita gente não vai conseguir ir porque o custo aumentou muito”,
afirma Fernanda Zaguis, consultora em planejamento e gestão do Movimento Verde
e Amarelo, que desde 2008 organiza a ida de brasileiros para as Copas.
Ao
contrário de 2022 e 2018, quando o transporte público para os estádios era
gratuito, desta vez os gastos com o trajecto terão de ser considerados. Em
Boston, o valor do trem para o Estádio Gillette, em Foxborough, a cerca de 50
quilômetros da metrópole, estará quase 10 vezes mais caro que o normal, num
total de US$ 80. A viagem de ida e volta no ônibus Express, reservado para
portadores de ingressos, custará US$ 95.
Em Nova York, o valor é semelhante (US$ 100 ida e volta) para ir de Manhattan ao MetLife Stadium, em East Rutherford. “Está todo mundo revoltado. Acho que vai ser até mais caro do que no Catar, que era um país caro, mas a gente não tinha que ficar mudando de lugar. Não tinha voos internos e economizamos nisso”, lembra Zaguis. “Estamos juntando a galera para chegarmos ao máximo de pessoas possível e reduzir o preço.”
Os
ingressos são outro problema. A partida final, em 19 de Julho, não sai por
menos de US$ 11 mil (R$ 54 mil) na plataforma oficial da Federação
Internacional de Futebol (Fifa).
Os mais caros disparam para US$ 2,3 milhões).Essa tem sido a realidade desde que a entidade adotou um sistema de preços dinâmicos para aumentar os seus lucros, explica Pim Verschuuren, especialista em gestão do esporte e professor-associado da Universidade de Rennes 2, na França.
“Quatro anos de futebol são financiados em um mês de Copa do Mundo, mas existe o problema de manchar o discurso da FIFA de que o futeboldeve ser o desporto mais popular do mundo, universal”, pondera. “É verdade que essas tarifas excessivas permitem financiar o futebol, mas também financiam a própria Fifa, onde temos problemas antigos de governança.
O dinheiro infelizmente não vai todo para os praticantes de futebol e a todos os que se envolvem com o desporto”, constata.
Outro ponto delicado é a própria entrada nos Estados Unidos, que
preocupa os torcedores dos países pobres e em desenvolvimento, alvos
prioritários da polícia anti-imigração americana nos últimos meses.
Restrições de entrada são aplicadas a países como Haiti, Senegal
e Costa do Marfim, mas podem ser contornadas com o pagamento de uma caução que
vai de US$ 5 mil a US$ 10 mil.
O Brasil não está nesta lista, que inclui 47 países, a maioria
africanos. Mas, mesmo assim, o torcedor que precisa de visto teve de
desembolsar a quantia de US$ 435 para a obtenção do documento – e ainda muitos
tiveram o pedido recusado.
“Muita gente teve o visto negado. Muita mesmo, principalmente
músicos, profissionais liberais, e já estavam com tudo comprado, passagem,
voo”, aponta Fernanda Zaguis. “Não teve o que fazer.”
O maior sindicato do estádio de Los Angeles exige garantias de
que todos os torcedores com ingressos poderão cruzar as fronteiras americanas –
do contrário, ameaça fazer greve durante as competições.
“É um jogo político, e a Fifa está presa na sua própria armadilha
porque o seu modelo económico depende de os países anfitriões administrarem
todos os aspetos de segurança e hospitalidade, enquanto as receitas vão
diretamente para os cofres da Fifa”, indica Verschuuren. “Infelizmente, agora
este modelo está sendo desafiado porque a federação não tem controle real sobre
o que é feito.”
O receio de enfrentar problemas na
imigração e a perspectiva de gastos afetam os planos de torcedores pelo mundo,
inclusive nos países ricos. Na França, uma pesquisa divulgada pela BetFirst
apurou que para assistir aos três primeiros jogos dos “bleus” na Copa, é
preciso gastar em média € 4,8 mil.
Em Março, a Organização dos Torcedores
Europeus (FSE, na sigla em inglês), entrou com uma queixa contra a Fifa para
denunciar os preços “exorbitantes” do Mundial, além de um procedimento
considerado “opaco e desleal” de venda de ingressos. ANG/RFI

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