França/Governo amplia tempo de detenção de estrangeiros sem documentos considerados perigosos
Bissau, 17 Jun 26 (ANG) - O Parlamento francês aprovou na terça-feira (16) uma lei que amplia de 90 para até 210 dias, em casos excepcionais, a detenção de estrangeiros em situação irregular considerados perigosos.
A decisão ocorre após um intenso debate marcado por
críticas da esquerda e defesa da legislação pelo governo, diante de crimes
recentes que abalaram o país, em meio a um escândalo de falhas que abalou a
Justiça francesa.
Após o aval do Senado na véspera, a
Assembleia Nacional deu o sinal verde definitivo ao projeto de lei, com 345
votos favoráveis e 177 contrários. O texto foi apresentado pelo deputado
Charles Rodwell, do partido governista Renascença, e contou com apoio do
governo, da direita e da extrema direita.
A
discussão ocorreu em meio à comoção pela morte recente da adolescente Lyhanna,
de 11 anos, e retomou outro caso que marcou o debate político francês: o
assassinato da estudante Philippine, ocorrido em 2024, frequentemente citado
durante as discussões parlamentares.
"Philippine morava no meu distrito eleitoral. Sua família ainda vive lá (...). É em sua memória que apresentamos este texto", afirmou Rodwell durante o debate.
O ministro francês do Interior, Laurent
Nunez, avaliou que a medida "tira lições desse drama" ao corrigir
"falhas objetivas" no sistema.
O principal suspeito do assassinato de Philippine,
um cidadão marroquino, havia sido formalmente acusado de "homicídio com
outro crime em reincidência" e também de "estupro em
reincidência". Ele estava sujeito a uma ordem de expulsão do território
francês e havia sido liberado de um centro de detenção pouco antes do crime.
Na França, estrangeiros em situação
irregular podem ser mantidos em centros de detenção administrativa enquanto
aguardam deportação, caso haja risco de fuga. O prazo máximo até a aprovação da
nova lei era de 90 dias, podendo chegar a 180 dias em casos relacionados ao
terrorismo.
A nova legislação estende esse limite
para até 210 dias, em caráter excepcional. A ampliação se aplica a casos em que
o estrangeiro esteja sujeito a medidas de expulsão e represente uma ameaça
considerada "real, atual e particularmente grave" à ordem pública.
O foco são indivíduos condenados
definitivamente por crimes ou delitos que prevejam penas de pelo menos cinco
anos de prisão. A mesma ampliação de prazo valerá também para estrangeiros
condenados por terrorismo.
Rodwell defendeu que o texto estabelece
"um equilíbrio adequado entre a proteção das liberdades públicas, o Estado
de Direito e o reforço efetivo da segurança". Segundo ele, a formulação
atual foi pensada para superar eventuais questionamentos do Conselho
Constitucional, ao contrário de uma proposta anterior rejeitada.
O
primeiro-ministro francês,Sébastien Lecornu, afirmou em rede social que o
governo priorizou "a eficácia em vez de posicionamentos simbólicos" e
elogiou o trabalho conjunto entre Executivo e Legislativo para chegar a uma
resposta "concreta e operacional".
Além da ampliação dos prazos, o projeto de lei estabelece uma "ordem de avaliação psiquiátrica", que poderá ser determinada pelo representante do Estado em nível local para obrigar determinados indivíduos a se submeterem a exames, com o objetivo de prevenir atos terroristas.
O texto também prevê a criação de um
mecanismo de "detenção de segurança terrorista", permitindo que
pessoas consideradas em risco de reincidência e que demonstrem adesão a
ideologias terroristas sejam encaminhadas a centros de cuidados após o
cumprimento de pena.
A oposição de esquerda criticou
duramente a proposta e questionou sua eficácia. Para o deputado Andy Kerbrat, a
legislação "não teria salvado" a vida de Philippine, lembrando que o
suspeito havia sido libertado após 70 dias de detenção, ou seja, antes mesmo de
atingir o limite atual.
Organizações que atuam nos centros de
detenção também contestam a medida. Segundo essas entidades, mais de 40 mil pessoas
passaram por esses estabelecimentos em 2024, e a maioria das deportações ocorre
nas primeiras semanas de detenção, o que colocaria em dúvida o impacto da
ampliação dos prazos.
O deputado socialista Romain Eskenazi
classificou a proposta como "uma manobra de comunicação",
argumentando que o texto combina temas distintos, como saúde mental, imigração
e terrorismo, e abre espaço para decisões arbitrárias. Para ele, o principal
obstáculo às deportações está nas relações diplomáticas entre países, e não no tempo
de detenção.
Apesar das críticas, a extrema direita
apoiou amplamente a iniciativa. Representantes do partido Reunião Nacional
afirmaram que o país "precisa desse texto", associando o aumento da
criminalidade a políticas migratórias adotadas ao longo da última década.
O deputado Michaël Taverne, da mesma
legenda, criticou a direita e o centro, acusando-os de buscar "alívio de
consciência" e responsabilizando-os pela situação atual. Ele os descreveu
como "bombeiros incendiários do colapso da França".
O debate expõe, mais uma vez, a
centralidade da pauta imigratória na política francesa e a dificuldade de
consenso sobre medidas que conciliem segurança, direitos fundamentais e
eficácia administrativa. ANG/RFI/AFP

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